Literatura

Fascinação

Que lindas! / Que belas! / As estrelas no céu sem fim!

Olho para elas / Elas para mim

Que lindas! / Que belas! / As estrelas no céu sem fim

Mas... é dia... / Ah, já sei! / Dormia...

Sonhei... / Mas... aquelas estrelas

Tão lindas / Tão belas / Que eu vi lá nos céus...

Estou a vê-las / Meu amor / Nos olhos teus!

Autora: Conceiçao Bernardino

O ACAMPÃO

A moçada Memorial Toda cheia de emoção Resolveu fazer um passeio Em total animação

Correu lista, fez mercado / Foi un jogo de cintura Veio Toninho todo oriçado /Jogou àgua na fervura

“Quem lhes deu a permissão, pra fazer um acampão. Senta todo mundo aqui, vou passar-lhes um sermão”

“Não dei ordem pra ninguém / Ir pra ilha acampar /O cabeça aqui sou eu, bem depois de Josafà”

Vai baixando o blà-blà-blà que eu não tou pra brincadeira/ Não me façam esquentar, pra eu nao fazer besteira.

Ô Tom Tom, não leva a mal / Acalmou Paulo Leal / Deixa essa Turma ir, pra poder se distrair

Tu vai ver, vai ser legal! / Tudo bem, eu vou deixar Mas aqui não vou ficar

Quando menos esperar, chego pra fiscalizar.

Tudo ia muito bem, Tè chegar em Bom Despacho / Duas Kombi se arranjou, Não deu outra, cambalacho.

Os motor’s jogou com o preço pra pegar toda a moçada / Mas depois se arrependeu. Nos largando na estrada

Olhe bem aqui, meus caros / Isso aqui não é corcel / Tem gente demais no carro / E bagulho pra dedéu

Tem que dar mais uns trocados... 100 de cada, ele arrisca / Pois daqui não movo o pé Nem que venha a policia! A policia apareceu, tudo então se resolveu / Os motor’s comeram a isca.

Analecia, quem diria! Não se esquenta, não se oriça / Imaginem, no almoço, trocou frutas por linguiça

Não sò uma, foram três / e comeu todas de vez  (Cont...)


O ACAMPÃO

(Parte 2)

Teve outro, um tal de Anderson / Que sentou pra almoçar / Ninguém sabe se comeu, ou só quis se lambusar. A cadeira que sentou, ninguém mais pode sentar

Sei que amar é mesmo um dom, ninguém pode isso negar / Vejam Jack e Levon, quem quiser se inspirar. Faça chuva ou faça sol, os dois nunca estão só / E’ pra se admirar.

Analecia, ela de novo / Resolveu se afogar / Quando viu tantos rapazes, là no mar a lhe olhar

Sabidinha essa garota / Finge até que vai morrer / Só pra ter todos os moços, prontos a lhe socorrer

Ti ri ri  Ta ra ra ra / Ô garota pra falar! Serà que vocês descobrem? Comecem a observar.

Hildinha, a pequenininha / Tá disposta a sei lá o quê / Pois combina cada coisa, que não dá pra se entender / Alguma coisa tá tramando, ou de alguém está gostando. Me ajudem a esclarecer.

Quem pensou que o Joaquim Era pouca porcaria / Enganou-se redondinho

Ele é uma especiaria. Diz que o carro que comprar/ Vai botar pra esbuguelar

Motorista e CIA.

Analecia e Eduardo, Lecia, Duda ou Dadadà / Não sei o que aconteceu, foram à praia passear

Sei que desapareceu / Ninguém conseguiu achar.

Teve uma brincadeira,  piscar olho para matar / Teve gente aproveitando, e piscou pra paquerar

Teve em uma só rodada, 10 bandidos pra matar / Dizem até que das piscadas, alguém vai até casar

Tenham calma minha gente! Não se pode nem brincar?

Vou agora me aquietar / Conversar não vou mais não / Senão vão me apelidar

Fofoqueira do acampão.


Pra lembrar sempre!

À memoria daquele garoto lindo e carismático que se foi antes de vivermos com ele toda a essência que ele tinha pra dar.

 

Um anjo chamado Kiel

 

* Samuelita Santana

 

Nos Jardins da saudade há sempre flores.

Rubras, rosas, azuis, amarelas, lilases.

Elas ficam lá, permanentemente visíveis.

São a referência cabal das presenças que continuam.... perenes.

No jardim da minha saudade tem um pequeno canteiro de flores. Tem a minha flor mãe, a minha flor pai..., minha flor irmão...... flores de amores...

Eis que surge agora uma ímpar flor...

A flor Kiel...

Uma flor que nasceu anjo.......lindo, sereno.

Abriu os olhos-petálas... floresceu dourado.......vingou ...mudou de cor

Sobrevoou canteiros....viu árvores frutíferas..... admirou.

Sentiu-se anjo tímido....mas avançou. Num impulso-missão de sobrevoar terras áridas, molhadas, aradas, férteis, desoladas.... exalando aquele cheiro bom de anjo-flor.

O arfar sutil de suas asas, tocou chãos, sussurrou ouvidos, agasalhou vidas.

O olhar focado-lentes derramou doçuras, piscou, convidou, lacrimejou, brilhou, festejou a vida...

Num vôo sublime, passeou em seu canteiro-abrigo, tão seu, tão seguro, tão doce... deixando cair plumas de suas

asas-amor,  acariciando peles, colos, ombros, faces lindas, rosadas, infantis,vidas, corações. (...)

Pra lembrar sempre!

 

Um Anjo chamado Kiel... (II)

 

Arriscou alçar outros vôos, conhecer paragens.

Era o impulso-missão...

Havia plumas a deixar cair...... flocos suaves de emoção, toques leves, carícia, atenção, aconchego, compaixão. ... paixão.

Passou por mim....num suave-marcante farfar. Deixando o rastro de um puro e desinteressado vento-amor. 

E no Lara lá da vida ele buscou meu olhar e piscou. Eu pisquei de volta....que brincadeira boa!

Era o anjo-flor Kiel apontando docemente as mil possibilidades de vida além das suas asas........ Se o lindo anjo Kiel poderia bem-me-quer, quem então poderia mal-me-quer...? 

Habituada à aridez e rancores da vida, tanta suavidade me   golpeou... docemente!

E do meu quase encastelado mundo, abri janelas para ver o  anjo Kiel voando em flor, arremessando pétalas...

E das aveludadas poltronas teatrais, vi ainda o seu magnífico sorriso se abrir e conquistar sorrisos em outras tantas bandas de bocas.... que ele tanto amava!

Falar de amor ele falava, bem do seu jeito.... o abraço macio, o olhar carinhoso..... desconcertando do outro lado da nuvem um surpreso interlocutor com aquele terno e inesperado  

“ voei aqui só pra te ver ”!

Não havia pra ele, forma melhor de dizer... te amo linda!, te amo querido!

(...)

Pra lembrar sempre!

Um Anjo Chamado Kiel (III)

 

O anjo Kiel amava muita gente...... e o tempo urgia!

Na sua calma serena, o anjo tinha pressa.....

Ele intuía o curto trajeto que havia de percorrer....

Queria voar rápido.... sobrevoar pessoas, pequenos mundos, emoções.....

E partiu em seu último vôo....entrecortado....interrompido.....

Era hora de voltar..... e foi docemente chamado!

Olhou em volta....chorou lagrimas silenciosas...de sentimento-saudade.

Olhou pra cima... sorriu! Lá estava o seu lugar...

Seu assento, tão dourado quanto seus cabelos, alegremente vigiado por amigos anjos, arcanjos, querubins.....

Anda Kiel.... vem logo..... e divertidos foram recebê-lo, aplaudindo asas...

E lá se foi Kiel.......o anjo bom em flor....

Deixou uma saudaaaaade............e um canteiro imenso de pluma-amor.

Foi tão bom vê-lo sobrevoando por aqui. Mas, nenhum de nós que sentiu o vento do seu voar, deve ousar em pensar  chamá-lo de  volta....

 

Dá uma olhada no anjo Kiel sobrevoando a cidade de ouro puro, semelhante a vidro transparente, adornada com pedras preciosas, fundamentos de jaspe, safira, calcedônia e esmeralda... olha lá os muros de ametistas e portas de pérolas, as ruas de safira e topázio  ...olha os rios de água pura, claros como cristais.... escuta o som virtuose da melodia das harpas... e aquela luminosidade? não é sol, não é lua, é um resplendor sobrenatural... e olha lá Kiel, carinhoso e brincalhão no meio dos amigos alados......

Ah, isso sim é que é cidade de anjo..... deixa Kiel lá!

Afinal, anjo não morre mesmo....bate asas e voa....deixando  serena saudade .... e presença eterna!

 

*Samuelita Santana é jornalista

e amiga pra sempre de Kiel

Cronica

Fim de Verão

 

Ontem sorria feliz, o sol, apesar de tímido, era ainda muito acolhedor. O vento morno acariciava levemente minha pele ainda bronzeada como se fosse um dia qualquer de verão. Mas... é outono. No entanto sinto esse dia com a mesma emoção dos últimos dias primaverís. E eu sorrio... aquele sorriso marôto de cumplicidade que só eu, o sol, o calor e o vento morno sabemos compreender. O ar tépido que caracteriza o verão, é carregado de serotonina - o hormônio da felicidade - e eu o absorvo completamente, por osmose. E' necessário. E' essencial pra poder ser descarregado devagarzinho, um pouco de cada vez, distribuido em doses homeopaticas, diluído o bastante pra resistir os seis meses de hibernação emotiva que me espera.

Ontem era como se fosse primavera, inicio de verão. E eu sorria, carregada de serotonina, o bastante pra manter esse sorriso até o meu despertar nessa manhã. Abro a janela, ainda sorrindo. Uma brisa fresca envolve meu corpo, penetra nas minhas entranhas... respiro profundo, olho o horizonte, uma rajada mais forte faz esvoaçar as cortinas e faz avivar minhas suspeitas, que um minuto antes não quis admitir. O vento sopra com maior intensidade... menos que ontem! A aragem agradável dessa manhã, era só um oásis na minha memória,, um capricho do meu subconsciente que insiste em querer transformar o vento gélido em uma brisa do deserto... mas hoje é outono, só agora percebo. A brisa fresca... aliás, muito fresca... ou quase gelada... congela meu sorriso... Sinto vontade de cantar a canção de ontem...

Sinto vontade de sorrir hoje, a tepidez do sorriso de ontem... Mas hoje é outono, o sorriso é frio, a canção inaudível...

Tenho que prosseguir... sem sorriso e sem canção. Começo a parcimoniar a serotonina... medir a ração diária pra não acabar. Recomeço o count down... até a próxima primavera!

E espero - com pressa - o verão retornar! 

 

E' isso q senti nesse final de verão e quis documentar o meu sentimento. Preciso aprender a aceitar essa drástica realidade, e me habituar a conviver com a alta definição das estações, o que ainda é muito duro pra uma nordestina doc como eu.

Paciencia.

Poesia

O DRAGÃO E A LUA VERMELHA

( Marco Milani ITA - IL DRAGO E LA LUNA ROSSA - trad. Eliude Santana )

 

 

 

Lua vermelha como fundo

Ao Dragão que voa,

Não duas coisas distintas

Mas uma só alma.

 

Calmas asas desdobradas

sem movimento de vento,

círculo vermelho profundo,

céu negro estrelado.

 

E em uma única letra,

por vital acordo

de potência latente,

que não explodirá nunca.

Poesia

O RAMO DE PESSÊGO

( Marco Milani ITA – IL RAMO DI PESCO - trad. Eliude Santana)

 

 

 

Nao è mais que um ramo

De pessêgo mucho,

frouxo, cadente,

empretecido de morte,

Não é mais que ramo,

recoberto de folhas,

como pequenas mãos,

que não poderão mais indicar o céu.

Não é mais que um ramo,

que uma vez era vida,

e agora permanece

entre lixos e dioxina,

a preveder o futuro

Conto

ALGUEM ME VIU?

Ray Silveira

Eu jurava que era eu. Tinha tudo para ser eu: o mesmo porte, a mesma silhueta e a mesma sombra magra. Eu morava no décimo andar, mas podia ver tudo. Estava sentado numa pedra, o cotovelo apoiado na coxa, a cabeça abaixada e a mão direita sustentando a mandíbula. Exatamente, como no “O Pensador”. Não me contive. Desci correndo as escadas. Sequer paciência para esperar o elevador.  Frustração, ódio, quase desespero: não era eu. Nem parecia comigo...

 

Me meto em situações ridículas: interrogo transeuntes desconhecidos, sinalizo e paro transportes coletivos, telefono para estranhos. As pessoas riem. Certamente cuidam que sou louco, por procurar aleatoriamente alguém numa cidade tão grande quanto esta. Afinal, são três milhões de habitantes. Mas, como poderia fazer de outra maneira? Não tenho meu endereço... Sim, já pus anúncios em jornais, inclusive com a minha foto.  Nenhuma pista convencional.

 

Outras vezes, caminho à toa pelas ruas observando lugares onde poderia ser encontrado: bares, livrarias, açougues, bibliotecas, curtumes, cinemas, cerâmicas, parques de diversões e matadouros. Nada. Desconfio que me escondo de mim. Um dia desses contratei um detetive. O relatório dizia isso mesmo. Quando não há vestígios de uma pessoa desaparecida, é quase certo que utiliza toda a energia e capacidade mental para esta única finalidade: esconder-se.

 

Numa certa madrugada me alevantei, apanhei a maleta velha, examinei mais uma vez o conteúdo e saí. Podia ser a hora que costumasse sair de casa. Para não ser visto. Para não se encontrar comigo. Moro nas proximidades da rua Treze de Maio, entre Assunção e Floriano Peixoto. Caminhei em direção ao centro da cidade. O modo como segurava a maleta parecia suspeito. Pressionava-a contra o peito, com ambos os braços, como se protegesse um bebê.

 

Na Praça dos Voluntários, entrei na Secretaria de Polícia e procurei como se estivesse buscando um alfinete. Continuei a caminhar pela General Bezerril, para a Praça do Ferreira. Prossegui pela rua Major Facundo até o Passeio Público. Vasculhei cada metro quadrado Depois me masturbei mais uma vez na calçada do hotel. Mas sem largar a maleta. Segui, em linha reta, pela rua Castro e Silva, caminhando pela calçada da Santa Casa, onde entrei. Examinei todos os leitos das enfermarias de homens. Nos fundos do hospital, uma agência funerária. E anexo a esta, o necrotério. Era o último lugar onde faltava procurar. Havia um único funcionário de plantão. Naquele dia, esperei até que raiasse o dia. Depois da longa espera, a desinformação: “Não, não consta nada nos nossos registros. Pesquisei de 1945 para cá. Nenhum cadáver deu entrada que pudesse ter sido o senhor”.
Ray

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